30 de jan de 2012

A Pescaria. Mata Cerrada.

A Pescaria.

À beira do lago mais uma história se formava em Mata Cerrada. Empenhados, Tico e Teco lançavam na água as primeiras iscas. Toim ajeitava uma fumaça para espantar os borrachudos. Na água, os peixes seguiam, serenamente, suas próprias idéias, indiferentes aos anseios que os rondavam. A relva verde da margem escondia olhos atônitos, interrogativos que num rápido piscar se reabriam para não perder a cena. Os sapos observavam curiosos. A escuridão envolvia cada recanto da mata, era lua nova. Todo bom pescador conhece a melhor lua para se pescar. Vejo que se entendessem o que acontecia não correriam tão rápido naquele momento, mas por hora tudo ia bem, apesar da falta de peixes.
As lendas rodeavam o Lago do Galope, mesclando-se em meio à falta de luz. Ao longe, um corujão soltou pavorosamente o primeiro grito da noite. Toim queimou o dedo, poderia ser o grito de um Xexen, haviam sumido, mas quem sabe. Os três olharam para o banco vazio. A mata parecia apertá-los com seu movimento. A  bicharada estava em polvorosa.  As lendas que, antes, apenas rondavam, tomaram de sorrateiro suas mentes. Esperavam que Tamirão fosse à pescaria, pode até ser que ele iria, mas duas coisas o impediam. Uma, naquele mesmo lugar houve a briga que os separou.  Briga essa, que ocorreu pelo trio ter esquecido seu banco, também deixaram os peixes com fome, acharam saborosamente vistosas as iscas e as comeram. Isso, sem falar no lanche do pobre garoto que, segundo Teco, fora roubado pelo Caboquim do Brejo. Fato que, na época,  deixou Tamirão indignado, pois bem sabia de longa data que o Caboquim só comia carne fresca. Dois, os irmãos simplesmente não determinaram quem chamaria o ex-amigo, pelo que ninguém o fez. A demora os fez perceber o erro, não haveria  ali a tão esperada reconciliação. Tico pegou o sanduíche que havia levado e o comeu, não precisaria mais dele para provar a fraude do Caboquinho, ele comia sanduíches.
Mata Cerrada nesse tempo, não tinha mais em si a antiga fertilidade para grandes aventuras, a modernidade tratou de permear o sangue de um povo e deixá-lo com pouca tinta. Grandes histórias há muito não floresciam mais aqui. Uma chama se acendeu, tentando contornar as adversidades. Antes que o corujão completasse seu grito, um arrepio percorreu os três amigos. Nos olhos de Toim as chamas se multiplicaram, instantaneamente, as pernas  impulsionaram-no, de fato, só poderia ser um ataque, os Xexens haviam voltado para retomar seu território. Sem nada ser dito, Tico e Teco sequer esperaram o ar alcançar os pulmões para ultrapassar o amigo, sempre foram os mais rápidos nessa modalidade. Teco estatelou-se no chão, uma pedra encontrara seu pé que sem unhas cismou em sangrar. Tico que de afobado que foi, à beira lago, numa parte demasiadamente úmida, afundou-se ao meio, pelo que as calças resolveram ficar por ali mesmo. Toim que nada encontrou, foi o primeiro a chegar ao Vilarejo, branco que só,  e sem fôlego, ainda assim não lhe gastaram cinco segundos pra incendiar a primeira notícia. Os Xexens haviam voltado. Teco que da outra parte chegara se arrastando, contou que encontrara a cabeça da mula e que o animal que há tempos a levara, quase lhe arrancou a perna. Tico sujo que só, e menos vestido que os outros, socorrido por um grupo, desabafou, após uma dura luta escapara das garras do Caboquinho.
Mata Cerrada reacordava de seu sono, não havia dúvidas, era a hora decisiva, ânimos exaltados, novas perspectivas. Frio e escuridão se fundiam, elaborava-se mais uma manhã, mas a noite ainda não acabara.

6 de jan de 2012

O Tempo

Depois de um período sem postar nada, resolvi relatar sobre ele.

O tempo.
O tempo não quis me contar
Que das histórias que viriam
Nem todas estariam a me alegrar
Que dos segredos muitos
Às vezes, escondia para si
A melhor parte de minhas aspirações.
Dos segredos que contei-lhe
Não fez caso, não quis
Compartilhar, das façanhas, artimanhas
E amores, que jamais almejara conquistar.
Não havia como simplesmente entender
Muito menos raciocinar, pois
Por mais que me falasse
De que valeria saber das surpresas
E incertezas que trazem à vida
Um aroma fugaz
Um sonho noturno, um suspiro
Taciturno, esperto
O sublime sabor das boas notícias
Que não se esperavam
Que não pudemos escolher
Não nos coube debater
Não queríamos aceitar
 Se fizeram belas, simples, eternas
Sem planos, nem preocupações.